Felicidade

O ser humano vive em constante busca pela felicidade, ainda que a sua definição seja um tanto quanto controversa.

O que é felicidade para uma pessoa pode não ser para outra, de modo que há de se considerar o local onde se vive, a época, a cultura predominante, os valores estabelecidos, entre outras questões circunstanciais.

Alguns acreditam que felicidade não existe, pois o que há na vida são momentos felizes. Certamente seria utópico pensarmos em uma vida inteira de felicidade, mesmo que se usufruindo de uma situação abastada, pois os bens materiais não garantem a plena felicidade. Aliás, vemos muitas pessoas com perfeitas condições e oportunidades para serem felizes, porém sem a menor satisfação ou alegria de viver. Da mesma forma, podemos constatar a existência de pessoas de origem humilde, sobrevivendo com o mínimo e que, no entanto, transbordam de alegria pelo simples fato de estarem vivas e em condições de sonhar e lutar por uma vida melhor. Algumas vezes nos chocamos ao conhecermos pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência ou alguma doença grave e que, ainda assim, conseguem ser exemplos de força e fé, superando obstáculos inimagináveis.

Algumas religiões defendem que a felicidade não é um objetivo em si, um destino, e sim a viagem, o percurso em busca da mesma. O simples fato de se estar vivo já é um evento feliz, pois encerra em si infinitas possibilidades de buscas e realizações.

Nosso passado, nossa história é naturalmente o alicerce do que construímos no decorrer dos anos. É o pano de fundo do que temos no presente, sem nem mesmo nos darmos conta em alguns momentos. Muitas pessoas vivem de forma infeliz por conta de inúmeras cicatrizes trazidas de outros tempos, como: sentimentos de menos valia, frustrações, mágoas, rejeições e uma série de episódios desastrosos.

É importante pararmos e refletirmos sobre nossas experiências vividas, entendendo que o mais significativo não é o que de fato nos aconteceu, mas sim o que fizemos com o que nos aconteceu. Tudo passa pela nossa leitura interior sobre a realidade que nos cerca. Um mesmo episódio tem peso diferente para as pessoas, já que cada um enxerga pela sua ótica, reagindo diferentemente aos fatos. A forma como reagimos está no nosso campo de decisão, enquanto que as situações passadas estavam na maioria das vezes fora do nosso controle.

Alguns conseguem a façanha de não permitir que certos fatos passados interfiram no presente, de forma a comprometer a qualidade vida, o que certamente não é o caso da maioria. O mais comum é notarmos que as pessoas sofrem pelo simples fato de não terem tido a oportunidade de aprenderem a gostar de si mesmas. Quem de nós teve o privilégio de ter uma educação que envolvesse questões voltadas para a auto-estima e a possibilidade de se enxergar como alguém capaz de se aceitar com seus pontos fortes e fracos. Ninguém nos ensinou a gostar de nós mesmos, e isso gera nas pessoas uma ausência de si mesmas e a necessidade de buscar no outro a satisfação de seus desejos e necessidades.

Acabamos colocando sobre os ombros do outro a responsabilidade por nos fazerem felizes, muitas vezes massacrando e torturando o outro, o que é completamente injusto. Isso quando não buscamos a compensação na comida, em vícios ou coisas parecidas. É como se houvesse um grande vazio interior a ser preenchido, algo que grita e busca desesperadamente pela completude.

A velha crença que diz a respeito de buscarmos no outro “a metade da laranja” já traz a conotação negativa de que não somos inteiros, pois valemos metade, e que sempre dependeremos de alguém que nos complete. O correto seria termos duas pessoas inteiras, convivendo e usufruindo do prazer da companhia do outro, sem qualquer tipo de dependência.

Buscar na vida a dois, no casamento, uma correção de rota para a própria vida é um grande erro, pois nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos, já que ambos partem para o relacionamento com várias expectativas que nem sempre o outro tem conhecimento. E o que acontece quando temos expectativas não atendidas? Os sonhos se desmoronam e o que deveria ser uma doce experiência de compartilhar momentos, torna-se um pesadelo cheio de dores, mágoas e decepções.

Fritz Perls escreveu a Oração da Gestalt, que de forma simples e objetiva nos mostra como seria mais fácil viver se a praticássemos:

“Eu sou eu. Você é você. Eu faço as minhas coisas e você faz as suas. Eu não vim a este mundo para viver de acordo com as suas expectativas e você não veio para viver de acordo com as minhas. Se por acaso nos encontrarmos, será lindo. Se não, nada há a fazer.”

Na medida em que se tem na infância um ambiente familiar com falta de apoio e da sensação de ser querido, somado a situações de constrangimentos na vida escolar (o que é bastante comum) temos o cenário perfeito para o desenvolvimento de uma pessoa com baixa auto-estima. Isso geralmente leva a um sofrimento interior bem intenso e que, muitas vezes, nem se tem consciência. Como resultado, a pessoa não se sente bem consigo mesma, culpa-se com muita freqüência, apresenta dificuldades de relacionamento e sofre com pequenas coisas que não deveria se importar, pois tornou-se sensível a tudo que possa desqualificá-la mais do que já se sente inferiorizada. Ou seja, a vida vira um verdadeiro inferno, pois os sentimentos negativos acabam predominando e trazendo a “comprovação” da incapacidade de construir a própria felicidade.

Chatear-se porque alguém não gostou de algo que fizemos ou dissemos é normal, pois é muito mais prazeroso viver de forma harmoniosa com os que nos cercam. Porém, infelizmente é impossível agradarmos a todos o tempo inteiro. Viver em função de agradar o outro para sentir-se aprovado e querido é algo bastante perigoso, pois nem sempre o que agrada a um agrada ao outro. E, o pior, ficar na expectativa de aprovação alheia para nos sentirmos bem é bem delicado, pois nem sempre o outro aprova ou demonstra que aprova nossas ações. Esse tipo de atitude pode trazer sofrimento exatamente pelo fato de deixarmos nas mãos do outro a responsabilidade por nos fazer felizes, e também por nos colocarmos em segundo plano, não considerando o que de fato gostaríamos de fazer, e sim o que seria bom fazer para contentar o outro.

Em síntese, entendo que a felicidade está no simples fato de nos amarmos, para depois amarmos os outros. Entender a vida como uma grande oportunidade de construir e de ser útil à humanidade é algo espetacular. E isso torna-se mais fácil quando aceitamos que somos seres imperfeitos, mas que mesmo assim podemos nos sentir dignos de nos amar e sermos amados. Somos todos como estrelas que brilham no céu. Uns parecem brilhar mais que os outros, porém o que ocorre é que todos brilham igualmente. A diferença está apenas na distância existente entre nós e que nos traz a ilusão de brilho maior ou menor.

Aurea Magalhães
Psicóloga – CRP: 06/27962
aurea@aureamagalhães.com

27/08/2008